Como se sentir bem em qualquer lugar

Flickr - Creative Commons (CC BY-NC 2.0) - Chris Ford

Viajar é sempre uma boa pedida quando precisamos mudar de ares e colocar as ideias no lugar. Às vezes uma mudança de ambiente pode nos ajudar a perceber muitas coisas sobre a vida. O mundo é muito grande e nossos problemas são, de fato, muito pequenos – afinal eles são quase sempre atribuídos à nossa individualidade. No momento em que nos retiramos de um ambiente e tomamos certa distância do nosso dia a dia, podemos observar nossa situação a partir de um outro ponto de vista – e isso nos permite analisar situações sem que nos sintamos afetados por elas. É como se, ao mudar de ambiente e tomar tal distância, você deixasse de fazer parte daquele cenário e percebesse que seus problemas não definem você. Todos os problemas podem ser resolvidos, e viajar sempre pode te dar uma perspectiva nova. O mundo tem bilhões de pessoas, cada delas com suas próprias preocupações. Mas o que de fato importa na vida?

Da mesma forma que pode te ajudar a observar as situações sob uma nova perspectiva, viajar pode ser frustrante caso você não abandone sua perspectiva anterior. Afinal, aonde quer que você vá, você estará lá. Parece óbvio, né? Mas nem tanto. Seus sentimentos e sensações estarão com você, não importa onde você estiver. Mesmo que eles estejam aparentemente escondidos em certas situações, eles te acompanham a todo lugar. Não seria incrível se, ao invés de levar preocupações na sua bagagem, você pudesse levar a paz a todo tempo com você?

Se sua sensação interna for positiva, não importa o lugar: todas as situações, todos os acontecimentos e tudo à sua volta será incrível. As paisagens ficarão mais bonitas. As interações serão felizes. As pessoas sempre terão algo interessante para lhe oferecer. Mas tudo isso é uma questão de perspectiva.

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Flickr – Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0) – Ed Yourdon

Eu sempre digo que viajantes devem ser flexíveis. Imprevistos acontecem e há situações que podem te deixar chateado (inclusive, nesse post eu fiz uma lista de perrengues que eu já passei e como evitá-los). Mas se você se deixar afetar por qualquer coisa pequena, sua viagem não vai ser tão legal e suas memórias sobre ela vão te trazer aquela sensação esquisita. Mas você sempre tem a opção de ver os acontecimentos com outros olhos. Todas as situações podem te ensinar algo. Tudo que a princípio você julga como ruim é parte de um aprendizado sobre a vida. Quando você viaja com essa mentalidade, nada jamais poderá estragar seu dia e seu humor. Tudo vira história para contar depois!

Eu acredito que é mais fácil aplicar isso em viagens do que no nosso dia a dia, longe do que você considera a sua vida, longe do seu trabalho e sua rotina, em outro ambiente, quando você está vivendo situações novas… Uma nova viagem é a hora perfeita para se permitir sentir coisas novas e boas, se abrir para as possibilidades. Viagens se tornam sempre prazerosas e incríveis quando você pensa dessa forma. Mas melhor do que isso: já pensou aplicar isso na sua rotina também? Sentir-se assim com a sua família, com os seus amigos, com as contas para pagar, com todas as coisas que você sempre considerou um problema?

Mais do que te mostrar paisagens e culturas diferentes, viajar pode te ajudar a ‘conhecer-te a ti mesmo’. O mundo que nossos olhos veem parte de dentro pra fora. Tudo que você enxerga passa pelo seu intelecto, pelos seus olhos, pelo filtro da sua personalidade. Situações que você considera ruins não necessariamente são assim, mas você as considerou como tais porque elas passaram por um análise sua baseada no seu passado. Então por que não começar aplicando essa mudança de perspectiva a uma situação diferente e incrível – uma viagem – para depois começar a aplicar isso no seu dia a dia? Usar os aprendizados sobre você mesmo adquiridos durante um momento de lazer na sua vida cotidiana; essa é a maior dádiva de um viajante.

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Deixo aqui um trecho de Cartas a Lucílio, de Sêneca, que expressa muito bem tudo isso:

‘Pensas que só a ti isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de após uma tão grande viagem e uma tão grande variedade de locais visitados não teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa na alma? Deves é mudar de alma, não de clima. Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso Virgílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios seguir-te-ão onde quer que tu vás. Do mesmo se queixou um dia alguém a Sócrates: “Por que admirar-te da inutilidade das tuas viagens” – foi a resposta – “se para todo o lado levas a mesma disposição? A causa que te aflige é exatamente a mesma que te leva a partir!” De fato, em que pode ajudar a mudança de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agitação carece de sentido. Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso não há terra alguma que te possa dar prazer!

Temos de viver com essa convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro! Quando te tiveres convencido desta verdade, deixará de espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra, levando para cada uma o tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te pertence, o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando na realidade o que tu pretendes – viver segundo a virtude – podes consegui-lo em qualquer lugar.

Escrito por , jornalista e tradutora que ama conhecer novas culturas e viajar, seja com os livros ou com a mochila nas costas. É criadora de Conteúdo no WePlann.

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