Entrevista com primeira latina a interpretar Roxie Hart na Broadway

Bianca Marroquin fazendo o papel de Roxie Hart, no musical Chicago, da Broadway. Ela está segurando uma página de jornal que diz: Roxie Rocks Chicago!

Bianca Marroquin como Roxie Hart

Conhecida pela sua incrível voz e habilidades de dança admiráveis, Bianca Marroquin foi a primeira atriz mexicana a fazer um papel principal na Broadway. Há 15 anos ela vem fazendo o papel de Roxie Hart no musical Chicago de forma intermitente. Eu tive o prazer de entrevistá-la na minha visita a Nova York e assistir ao seu primeiro espetáculo de volta ao show em janeiro de 2018, após sete meses em que ela esteve fora da Broadway. Leia também este post para saber mais sobre Chicago.

Como foi voltar aos palcos da Broadway depois desses sete meses dedicados a outros projetos?

É claro que estar naquele palco novamente com as luzes, a música, a escada, meus sapatos, meu microfone, tudo é um pouco novo para mim. Eu preciso me familiarizar com tudo novamente, com os passos, com os movimentos. Então, esse primeiro show de volta é sempre um pouco instável, mas uma vez que eu faço esse primeiro show, estou pronta para começar realmente.

Quais são os outros projetos nos quais você vem trabalhando?

Um dos projetos ao qual eu estou me dedicando é o Pequeños Gigantes, no México, que é como “Dancing With the Stars”, mas com crianças. Eu fui jurada desse programa anos atrás por duas temporadas. Eu também fui jurada de “Mira Quién Baila”, então pelos últimos sete anos eu vim fazendo esses programas para a Televisa e Univision, o que é uma bênção que me permitiu conectar com a comunidade hispânica e atraí-la para o teatro quando eu volto a ter um contrato com a Broadway.

“Pequeños Gigantes” é gravado no meu dia de folga de Chicago, às quartas-feiras. Nas terças-feiras à noite após a performance, às 22h30, quando eu saio do teatro, eu vou ao aeroporto para pegar o voo das 23h40 de Nova York para a Cidade do México, chegando por volta das 4h30 do horário do México. Durante toda a quarta-feira, eu gravo o programa que vai ao ar no domingo. Eu passo a noite lá e volto na quinta-feira de manhã para poder estar em Nova York a tempo da performance noturna de Chicago. Atuo a semana toda e, na quarta-feira seguinte, é a mesma coisa. Isso vai acontecer por dez quartas-feiras. É algo que eu sou louca o suficiente para fazer, mas que me deixa muito empolgada!

Outro projeto são meus shows. Eu estou criando um grande espetáculo na Cidade do México para fazer um tour pelo país. Isso vai acontecer após esses outros compromissos com o “Pequeños Gigantes”. Eu lancei um álbum no final de 2017 chamado “Nuestros Tesoros”, com músicas em espanhol dos anos 40 e 50. É um álbum do qual eu me orgulho muito e no qual quero focar um pouco.

Como você conseguiu seu primeiro papel na Broadway? Era algo que você já esperava?

Eu estava na Cidade do México fazendo todas as versões de shows da Broadway que eram traduzidas. Eram franquias perfeitas: eles traziam as equipes de Nova York para o México para abrir produções em espanhol. Eu fiz, entre outros musicais, O Fantasma da Ópera e Chicago. Em comecei a atuar em Chicago lá, em espanhol, e após fazer o musical por seis meses, fui convidada pela equipe criativa para fazer parte do musical da Broadway.

Walter Bobbie, o diretor de Chicago, teve a ideia de me trazer para a Broadway porque ele lembrava que eu falava inglês, pois fui criada na fronteira entre Matamoros e o Texas. No dia que fui chamada, meu produtor no México me disse que tinha estado no telefone com a produção da Broadway e que eles estavam me convidando. Ele me deu um script em inglês e eu tive três semanas para aprendê-lo; em seguida, eu faria minha estreia na Broadway. Foi um privilégio. Eu estudava o script em inglês durante o dia e fazia o show em espanhol à noite. E quando chegou o dia, eu voei para Nova York, tive quatro dias para ensaiar e fiz minha estreia na Broadway em 18 de junho de 2002.

Quais são os desafios de ser a primeira atriz mexicana a ter um papel principal na Broadway?

Eu não vejo como um desafio de forma nenhuma, vejo como uma bênção. Acho que é uma linda responsabilidade que eu recebi. Estudei dança e canto por toda a minha vida e tudo me levou àquele ponto. Quando eu voltei para casa e li as notícias que diziam que eu era a primeira mulher mexicana a receber um convite para cruzar a fronteira para fazer um papel principal na Broadway, eu soube que não estava fazendo isso só por mim, mas pelo meu país e toda a comunidade latina, que sabiam que havia alguém os representando na Broadway.

O que você mais gosta no papel da Roxie Hart? Você se identifica com ela?

Bom, há muitas diferenças entre nós duas. Por exemplo, eu nunca matei ninguém (risos). Mas eu posso dizer que a sua sede e seu amor pela dança e pelo palco, sim, eu definitivamente tenho isso. A energia, personalidade e o quão efervescente e viva ela é, eu tenho isso também. Eu me identifico com a jornada que ela está comprometida a ter para tornar seu sonho realidade. O papel requer ser uma cantora, dançarina, atriz e comediante, e é tudo que eu sou. Tudo sobre Roxie faz dela o papel dos sonhos para mim, e são 15 anos que eu venho crescendo com ela. Então, Roxie é muito querida para mim e eu não posso te dizer o suficiente o quanto eu sou grata por ter esse papel e pelo fato de que o espetáculo está em cartaz há tanto tempo.

Bianca Marroquin fazendo o papel de Roxie Hart no musical Chicago, na Broadway. Ela está em uma escada, em um fundo dourado, com um vestido preto.

Bianca Marroquin como Roxie Hart

Como Chicago é diferente dos outros espetáculos em que você participou?

Chicago é um show bem minimalista, então não há uma grande produção, grande cenário, candelabros ou helicópteros, nada disso. Normalmente, os músicos ficam abaixo do palco, na área da orquestra, mas em Chicago nós os temos no palco – e por isso há pouco espaço para dançarmos, mas é o suficiente. Menos é mais. Roxie e Velma têm algumas trocas de roupa, mas os outros personagens se mantêm no mesmo figurino por toda a noite, e é tudo preto. A única cor que há no palco é a moldura dourada para os músicos. A luz faz um dos maiores papeis, deixando o resto para a sua imaginação. Tudo isso é muito único e por isso que o show está rodando por 20 anos. É uma fórmula incrível, eles realmente sabiam o que estavam fazendo quando criaram tudo isso.

Como você faz para entrar em contato com as emoções do personagem enquanto atua?

O mais importante é estar presente no momento. Realmente saber o que você sente e colocar intenção no que está dizendo. Ao final, Roxie perde tudo e isso toca muito meu coração todas as vezes. Eu me imagino com a minha própria vida, nas vezes em que eu tive perdas, mudanças e transformações. Penso no que já se passou, na jornada de Roxie. Ela sonhava e estava empolgada com o mundo de “sim” que teria; ela finalmente poderia dançar e aparecer nos jornais. Ela tinha tudo e, de repente, ela perde tudo. Tudo pode ser tirado de você em um segundo. Mas há sempre uma oportunidade para mudar as coisas. Ou você se deixa acreditar que as coisas desmoronaram, ou você faz algo a respeito, se reergue, é criativo, se reinventa e volta.

Como é sua rotina física e sua alimentação?

Esse é um show que requer tanto de mim fisicamente que eu preciso comer bastante carboidrado. Especialmente nos finais de semana, você praticamente pode comer tudo que quiser para poder se manter forte. Além de estar em uma cidade em que eu ando o dia todo, desço e subo escadas do metrô, assim que eu desligar com você, vou para a academia correr 30 minutos na esteira para me aquecer, e depois fazer minha rotina de exercícios com base em todo o treinamento que eu tive ao longo da minha vida (um pouco de yoga, um pouco de ballet, um pouco de pilates…). Depois disso, eu vou para o teatro e começo a aquecer a voz.

Quando você está em um contrato com a Bradway, o show é a estrela da sua vida. Tudo é sobre o show que você vai fazer à noite. Você pode manter sua vida, mas sempre com a responsabilidade e o lembrete de que você é a estrela do show, você é reponsável por liderar uma companhia. Se alguém me convida para esquiar, eu vou dizer que não posso, porque preciso cuidar das minhas pernas. Então você precisa fazer escolhas como essas e pensa: “é melhor eu não fazer isso porque tenho um show hoje à noite”, ou “é melhor eu não comer isso, porque não vai dar tempo de digerir antes do show”. Depois do show, é outra história, você pode comer o que quiser – e eu adoro comer um hambúrguer com fritas!

Você faz ensaios para o show?

Não. O show continua, é uma máquina. Se há uma pessoa nova no espetáculo, então a pessoa tem ensaios particulares com o coreógrafo e coordenador de palco. Para mim, não. Eu cheguei aqui ontem às 14h30, tive apenas algumas horas no palco para lembrar de tudo, relembrei de todos os passos e foi isso. Saí para comer, voltei, passei minha maquiagem e fiz o show. Eu faço o show há 15 anos, então está tudo na minha memória muscular. É isso que nós, performers, fazemos: nós recebemos os scripts, os passos, e retemos as informações. Nossos cérebros funcionam dessa forma.

Como sua vida mudou desde que você começou a fazer o papel da Roxie na Broadway, em Nova York?

As culturas são muito diferentes, o governo, tudo. Todas essas condições influenciam o show. O público e seu humor são muito diferentes. Há uma cultura de teatro musical nos Estados Unidos. No México, na época em que eu vim para Nova York, não havia essa cultura estabelecida. Sim, pessoas vinham ao teatro, mas elas ficavam muito quietas, porque não estavam acostumadas com shows assim. Então, eu vim para a Broadway e vi que nós éramos celebrados a cada cena, cada palavra, aqui nós somos aplaudidos de pé. A Broadway é como o Walt Disney World e todos esses shows são como atrações diferentes que têm filas. Aqui tem pessoas que compram ingressos para ver um espetáculo em cada dia da semana, aqui é o lugar que você vem para assistir shows, e no México há apenas dois ou três espetáculos em todo o ano.

Como você acha que Chicago é um musical atraente para o público latino-americano?

Eu acho que é atraente para todos os países do mundo, porque esses são os tópicos que nós vemos nos noticiários todos os dias, sobre o sistema judiciário, o governo. Como a imprensa sensacionaliza criminosos e os converte em celebridades com toda a atenção que os dão – e esse é o exemplo perfeito de sensacionalização de cidadãos não são necessariamente exemplares. Eu acredito que em todos os países as pessoas podem se identificar com a história.

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Escrito por Natália Grandi, jornalista e tradutora que ama conhecer novas culturas e viajar, seja com os livros ou com a mochila nas costas. É criadora de Conteúdo no WePlann.

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